"Ter talento é privilégio de alguns, grana no bolso de quase nenhum..."Gravar um CD não é tarefa fácil, demanda tempo, dinheiro e perna pra correr, principalmente quando se trata de um projeto independente, o que para o Rap é uma constante. As monstras do mercado de entretenimento no Brasil ainda parecem cegas ao potencial da música Rap brasileira, que também tem força para movimentar algumas milhares cifras como se faz na gringa, e diga-se de passagem até melhor que eles.
Enquanto alguns poucos peixes são "fisgados" pelas gravadoras nesta piracema doida de "milhões de artistas por segundo" da Internet, outros tantos se debatem contra a correnteza na tentativa de ter ao menos o trabalho registrado num CD, DVD, numa exposição, num curta... E sem grana para investir, muito talento se torna desconhecido da grande mídia, ainda mais se levar ao pé da letra aquela do "peixe grande versus peixe pequeno". Porém, sem que capitalize os sonhos ou entre em discussões mercadológicas de gravadoras, que pescam meia dúzia para representar o Hip-Hop com primer na maquiagem, há portas - emperradas, sim, mas que estão aí disponíveis para que o Rap circule mais pelo Brasil. E a Lei Rouanet é uma delas.
Após as críticas sobre o privilégio do eixo Rio-SP na aprovação de projetos e uma atenção maior por parte do MinC à dificuldade de pequenos produtores em encontrar patrocinadores, ela está sendo debatida e reformulada por aqueles que a fazem. A nova proposta - entre outras, é de criar um fundo do Minc, que impedirá preconceitos ou favorecimentos á artistas que já têm a sua fatia garantida no mercado.
As mudanças, ainda a passos lentos, culminaram na assinatura de uma portaria (no último dia 5) que já desburocratiza parte do processo de inscrição de um projeto na lei. A nova portaria elimina exigências desnecessárias como, por exemplo, a apresentação de documentos de cessão de direitos autorais- que demanda tempo e dinheiro para ser obtida. Agora, será necessária a apresentação apenas da carta de anuência do proprietário ou detentor de direitos.
Outra mudança significativa é o fato de que, no ato da inscrição de projetos, não serão mais exigidos os termos de anuência dos artistas ou grupos culturais envolvidos com a proposta, apenas a ficha técnica e o currículo do diretor e artistas dos grupos. Também não será mais necessário o termo de compromisso com confirmação da pauta dos teatros que abrigarão os espetáculos, o que será exigido apenas quando os locais das apresentações forem espaços públicos.
Klandestino (foto acima), ex- Inquérito, teve aprovado o pedido de incentivo para a gravação do seu primeiro solo através da Lei Rouanet. No mesmo pacote de pedidos do incentivo em que ele inscreveu o projeto, estavam nomes como Caetano Veloso e Maria Bethânia, que tiveram os pedidos reprovados. "Isso demonstra que o Rap tem potencial para conseguir estes incentivos do governo e isso precisa ser explorado", disse. Para ele, a reforma na legislação irá dar mais espaço ao Rap, já que o modelo até então privilegiava artistas já consagrados, com suas produtoras próprias que cada vez mais buscam estas linhas de financiamento para gravação de dvds e realização de grandes shows."Entre Vanessa da Mata e o um grupo de Rap, a TIM por exemplo vai escolher investir em quem?", questionou.
Por outro lado, ele lembra que é necessário que o Rap se lance mais nestas oportunidades. "Se o Rap não aparece com frequência na lista de pedidos de incentivo, vai ficando esquecido, desta forma não se criam linhas específicas que deem atenção necessária à cultura Hip Hop". Como é o caso do Proac, em São Paulo, que por conta da grande demanda de projetos - e também pela necessidade de atenção, criou-se uma linha específica de financiamento ao Hip-Hop, "porém, eles privilegiam os projetos de exposições, oficinas, shows, e não dão tanta atenção à gravação de um CD", completou.
A idéia de procurar o incentivo do governo para a gravação do disco veio logo após a saída do Inquérito "A idéia surgiu logo depois que sai do Inquérito e comecei a analisar minhas composições que não haviam entrado no disco ("Mais Loco que U Barato") e que eu achei interessante expor no cenário. E então me afundei na leitura da lei, me aprofundei na tramitação da lei e elaborei com a cara e a coragem o projeto", contou.
Agora, com a aprovação do governo, ele procura por empresas interessadas em patrocinar a gravação do CD. Para ele, ainda faltam pessoas ligadas ao Rap nas comissões de análise dos projetos. "Ficamos na mãos do Ministério da Cultura, e o ruim é que não temos nenhum representante do Rap na comissão que analisa os projetos. Aliás, me inscrevi para participar da mesa, se for aprovado já é meio caminho andado para esta porta desemperrar".
O primeiro disco solo, intitulado "100 palavrões", terá 15 faixas e trará participações de Marcão, do DMN, Don L, Costa a Costa, Feijão do AO Cubo, Roberta (Nicole) e dos dois filhos do MC, Dener e Maria Eduarda. A produção é assinada por Fábio Maccari. A previsão é de que ele seja lançado no primeiro semestre de 2010. Na primeira tiragem, de 3 mil peças, todas serão doadas, as outras 2 mil previstas no projeto serão vendidas a R$ 8,99. "É uma maneira de retribuir distribuindo arte à periferia", disse.
Créditos: Ana Julia - Bocada Forte
Data: 18/09/2009





1 Comment:
Parabéns Klandestino! boa sorte pra você velho.
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